quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Bernardino Machado, presidente do Instituto de Coimbra

Eleito sócio efectivo do Instituto de Coimbra em 1873, época em que realizava os estudos de Matemática e Filosofia na Universidade de Coimbra, Bernardino Machado (1851-1944) viria a tornar-se um dos mais emblemáticos presidentes desta academia científica e literária. Começou por ocupar o lugar de vice-director da Classe de Literatura e Belas Artes, entre 1877 e 1880, assumindo mais tarde o cargo de presidente da Direcção do Instituto num período conturbado por quezílias internas, revelando-se uma figura central que, através da sua acção, em muito contribuiu para sanar as discórdias e refazer a unidade deste corpo académico.

Foi eleito presidente em Assembleia-Geral de 26 de Maio de 1896 e, através de sucessivas reeleições, manteve-se no cargo ainda na primeira década de 1900. Destacam-se, durante a sua direcção, a admissão de grande número de sócios, incluindo as primeiras mulheres a fazerem parte desse número (Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Amélia Janny, Domitilla Hormizinda Miranda de Carvalho); a cedência por parte do reitor da Universidade de Coimbra de todo o espaço do Colégio de S. Paulo Eremita ao Instituto e a realização de obras nesse mesmo espaço; a criação de cursos para operários; ou a comemoração do Primeiro Centenário do Nascimento de Almeida Garrett.


Livro de registo de matrículas dos alunos dos cursos populares (1897)


Em paralelo, leccionava na Faculdade de Filosofia, para a qual foi muito cedo nomeado lente catedrático (1879) e onde se viria a tornar professor de Antropologia, cadeira que foi criada por sua iniciativa em 1885. Já depois de cessar estas funções, Bernardino Machado foi eleito sócio honorário do Instituto, em Assembleia-Geral de 14 de Dezembro de 1910. Entretanto, tinha-se desligado da actividade docente em 1907 e partido para Lisboa, onde prosseguiu a sua actividade republicana. Integrou o Governo Provisório da 1ª República, em 1910, chefiou o Governo em 1914 e em 1921, e foi duas vezes eleito Presidente da República Portuguesa, em 1915 e em 1925.

Assinou diversos artigos na revista O Instituto, com especial relevo para os temas da educação, entre eles “O estado da instrucção secundaria entre nós” (vol. 30), “Notas d’um pae” (vols. 43, 44, 46, 47, 48, 49, 50), “Curso de pedagogia” (vol. 47) e “Pela liberdade” (vol. 48).

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

O Instituto e a telegrafia eléctrica

A análise de alguns dos artigos científicos publicados nas páginas da revista O Instituto revela a evolução da física no nosso país, em particular as ideias associadas à electricidade e ao magnetismo no século XIX, que revolucionaram as comunicações com a sua aplicação primeiro na telegrafia eléctrica e depois na telegrafia sem fios.

A telegrafia eléctrica em Portugal

A segunda metade do século XIX foi uma época de grandes transformações tecnológicas no nosso país. Em 26 de Abril de 1855, Fontes Pereira de Melo, então Ministro das Obras Públicas, assinou com o francês Alfredo Breguet, em representação da firma Breguet, sedeada em Paris, um contrato que previa a construção das primeiras linhas de telégrafo em Portugal. Quase simultaneamente, com início em Maio de 1855, a revista O Instituto do Instituto de Coimbra iniciou a publicação de um artigo, em várias partes, sobre a telegrafia eléctrica da autoria de José Maria de Abreu (1818-1871), no qual este lente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra (FFUC) relatava, em pormenor, a história da telegrafia eléctrica desde os seus primeiros ensaios, realizados em 1774, até essa data, passando pelas sucessivas inovações de que beneficiou. Abreu descreveu os aparelhos mais recentes utilizados em França, Inglaterra e na América, realçando as suas vantagens e desvantagens técnicas e comparando-os com outros já instalados em Portugal. Premonitória foi a sua conclusão relativamente à superioridade do aparelho de Morse, que mais tarde viria a substituir os de Breguet no nosso país, que eram então usados em França e que se incluíam nos telégrafos de quadrante. As imagens que se seguem correspondem: ao telégrafo de Breguet - o mostrador possui um ponteiro, que se move por acção de uma agulha magnética, onde estão representadas as letras do alfabeto (modelo didático do Museu de Física/Ciência da UC) e ao telégrafo de Morse - através de um lápis ou ponteiro de aço e por acção de uma alavanca, que o pressiona contra um rolo de papel, são marcados na fita pontos e traços (também do Museu de Física/Ciência da UC).

O Congresso Internacional de Paris de 1881 e as unidades eléctricas


A importância social adquirida pela telegrafia conduziu a um grande interesse, no nosso país, pelo estudo dos fenómenos eléctricos. No Congresso Internacional de Paris, de 1881, e nas Conferências que se seguiram, realizadas em 1882 e 1884, estabeleceu-se um sistema de unidades eléctricas (C.G.S.) para adopção internacional. Nele esteve presente António dos Santos Viegas (1835-1914), uma figura incontornável do panorama académico nacional da época. A FFUC elaborou um parecer favorável a este sistema, que foi publicado n’O Instituto. Para além da definição de um sistema de unidades eléctricas, as Conferências de Paris tentaram também definir critérios internacionais para as correntes das linhas telegráficas. Como exemplo do interesse suscitado em Portugal neste tema, refira-se que Henrique Teixeira Bastos (1861-1943) - na fotografia, aluno de Santos Viegas e posteriormente médico e professor da 2.ª cadeira de Física (Electricidade e Óptica) da FFUC, discutiu, na sua dissertação inaugural, em 1884, o tema Unidades Eléctricas e analisou, na sua dissertação de concurso em 1885, o tema Teoria electromagnética da luz, tendo esses dois trabalhos sido publicados pela Imprensa da Universidade.


Principais resoluções do Congresso (1881) e Conferências (1882 e 1884)

Ficou estabelecido o ohm como unidade de resistência, tendo como padrão uma coluna de mercúrio de um milímetro quadrado de secção e 106 cm de altura, à temperatura do gelo fundente. A força electromotriz passaria a ter como unidade o volt, correspondente a 108 unidades absolutas C.G.S.. Definiram-se também as unidades de corrente eléctrica, massa eléctrica (carga eléctrica) e capacidade eléctrica, respectivamente: o ampére, o coulomb e o farad. Todas as unidades passariam a ser baseadas no sistema electromagnético. Para além da metrologia, os trabalhos também incidiram em aspectos práticos relacionados com a telegrafia eléctrica. Decidiu-se pela utilização das linhas telegráficas para observação das “correntes terrestres” e elaboraram-se dois questionários para recolher elementos estatísticos relativos à eficácia de pára-raios e “à influência preservadora ou nociva das redes telegráficas”.

Telegrafia sem fios
Em 1897, A. A. M. Vellado Alvez Pereira da Fonseca (1873-1903), sob a orientação de Teixeira Bastos, publica uma tese sobre as Oscillações eléctricas, onde vêm relatadas as principais experiências realizadas sobre estes fenómenos, destacando-se as de Heinrich Hertz e Nicolau Tesla. O capítulo final da segunda parte é dedicado à telegrafia sem fios, onde Fonseca descreveu os sistemas a serem testados na altura. A evolução das comunicações, em particular o desenvolvimento da telegrafia sem fios, foi seguida atentamente no nosso país, como mostram as páginas d’O Instituto. Em 1903, dois anos depois da experiência de Marconi de transmissão de um sinal de rádio transatlântico, Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), professor de Química Orgânica da FFUC, publicou na referida revista um extenso artigo sobre Os phenomenos e as disposições experimentais da telegrafia sem fios, onde incluiu alguns esquemas dos equipamentos então em uso.
(Uma descrição mais alargada deste assunto está disponível no artigo: Leonardo, A. J., Martins, D. R. e Fiolhais, C. (2009). A telegrafia eléctrica nas páginas de O Instituto, revista da Academia de Coimbra. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 2, 2601 – http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/312601.pdf)