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quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Instituto e a telegrafia eléctrica

A análise de alguns dos artigos científicos publicados nas páginas da revista O Instituto revela a evolução da física no nosso país, em particular as ideias associadas à electricidade e ao magnetismo no século XIX, que revolucionaram as comunicações com a sua aplicação primeiro na telegrafia eléctrica e depois na telegrafia sem fios.

A telegrafia eléctrica em Portugal

A segunda metade do século XIX foi uma época de grandes transformações tecnológicas no nosso país. Em 26 de Abril de 1855, Fontes Pereira de Melo, então Ministro das Obras Públicas, assinou com o francês Alfredo Breguet, em representação da firma Breguet, sedeada em Paris, um contrato que previa a construção das primeiras linhas de telégrafo em Portugal. Quase simultaneamente, com início em Maio de 1855, a revista O Instituto do Instituto de Coimbra iniciou a publicação de um artigo, em várias partes, sobre a telegrafia eléctrica da autoria de José Maria de Abreu (1818-1871), no qual este lente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra (FFUC) relatava, em pormenor, a história da telegrafia eléctrica desde os seus primeiros ensaios, realizados em 1774, até essa data, passando pelas sucessivas inovações de que beneficiou. Abreu descreveu os aparelhos mais recentes utilizados em França, Inglaterra e na América, realçando as suas vantagens e desvantagens técnicas e comparando-os com outros já instalados em Portugal. Premonitória foi a sua conclusão relativamente à superioridade do aparelho de Morse, que mais tarde viria a substituir os de Breguet no nosso país, que eram então usados em França e que se incluíam nos telégrafos de quadrante. As imagens que se seguem correspondem: ao telégrafo de Breguet - o mostrador possui um ponteiro, que se move por acção de uma agulha magnética, onde estão representadas as letras do alfabeto (modelo didático do Museu de Física/Ciência da UC) e ao telégrafo de Morse - através de um lápis ou ponteiro de aço e por acção de uma alavanca, que o pressiona contra um rolo de papel, são marcados na fita pontos e traços (também do Museu de Física/Ciência da UC).

O Congresso Internacional de Paris de 1881 e as unidades eléctricas


A importância social adquirida pela telegrafia conduziu a um grande interesse, no nosso país, pelo estudo dos fenómenos eléctricos. No Congresso Internacional de Paris, de 1881, e nas Conferências que se seguiram, realizadas em 1882 e 1884, estabeleceu-se um sistema de unidades eléctricas (C.G.S.) para adopção internacional. Nele esteve presente António dos Santos Viegas (1835-1914), uma figura incontornável do panorama académico nacional da época. A FFUC elaborou um parecer favorável a este sistema, que foi publicado n’O Instituto. Para além da definição de um sistema de unidades eléctricas, as Conferências de Paris tentaram também definir critérios internacionais para as correntes das linhas telegráficas. Como exemplo do interesse suscitado em Portugal neste tema, refira-se que Henrique Teixeira Bastos (1861-1943) - na fotografia, aluno de Santos Viegas e posteriormente médico e professor da 2.ª cadeira de Física (Electricidade e Óptica) da FFUC, discutiu, na sua dissertação inaugural, em 1884, o tema Unidades Eléctricas e analisou, na sua dissertação de concurso em 1885, o tema Teoria electromagnética da luz, tendo esses dois trabalhos sido publicados pela Imprensa da Universidade.


Principais resoluções do Congresso (1881) e Conferências (1882 e 1884)

Ficou estabelecido o ohm como unidade de resistência, tendo como padrão uma coluna de mercúrio de um milímetro quadrado de secção e 106 cm de altura, à temperatura do gelo fundente. A força electromotriz passaria a ter como unidade o volt, correspondente a 108 unidades absolutas C.G.S.. Definiram-se também as unidades de corrente eléctrica, massa eléctrica (carga eléctrica) e capacidade eléctrica, respectivamente: o ampére, o coulomb e o farad. Todas as unidades passariam a ser baseadas no sistema electromagnético. Para além da metrologia, os trabalhos também incidiram em aspectos práticos relacionados com a telegrafia eléctrica. Decidiu-se pela utilização das linhas telegráficas para observação das “correntes terrestres” e elaboraram-se dois questionários para recolher elementos estatísticos relativos à eficácia de pára-raios e “à influência preservadora ou nociva das redes telegráficas”.

Telegrafia sem fios
Em 1897, A. A. M. Vellado Alvez Pereira da Fonseca (1873-1903), sob a orientação de Teixeira Bastos, publica uma tese sobre as Oscillações eléctricas, onde vêm relatadas as principais experiências realizadas sobre estes fenómenos, destacando-se as de Heinrich Hertz e Nicolau Tesla. O capítulo final da segunda parte é dedicado à telegrafia sem fios, onde Fonseca descreveu os sistemas a serem testados na altura. A evolução das comunicações, em particular o desenvolvimento da telegrafia sem fios, foi seguida atentamente no nosso país, como mostram as páginas d’O Instituto. Em 1903, dois anos depois da experiência de Marconi de transmissão de um sinal de rádio transatlântico, Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), professor de Química Orgânica da FFUC, publicou na referida revista um extenso artigo sobre Os phenomenos e as disposições experimentais da telegrafia sem fios, onde incluiu alguns esquemas dos equipamentos então em uso.
(Uma descrição mais alargada deste assunto está disponível no artigo: Leonardo, A. J., Martins, D. R. e Fiolhais, C. (2009). A telegrafia eléctrica nas páginas de O Instituto, revista da Academia de Coimbra. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 2, 2601 – http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/312601.pdf)

quinta-feira, 12 de março de 2009

As Ciências Físico-Químicas n’O Instituto

A revista “O Instituto” foi considerada desde o início como um dos meios para atingir o objectivo mais vasto do Instituto de Coimbra (IC), que era o alargamento da “a cultura das ciências, belas letras e artes”. A II Classe do IC era dedicada à ciência e dela emanaram muitos artigos que pretendiam a comunicação “em linguagem fácil, despida do aparato das escolas, as noções fundamentais de todas as ciências, aos que não podem, profundamente, cultivá-las”, segundo as palavras do seu fundador e primeiro presidente, Adrião Forjaz de Sampaio (1810-1874), expressas na introdução ao primeiro volume de “O Instituto”. A importância dada à cultura científica compreende-se pela prevalência de professores das Faculdades de Matemática e Filosofia (ou da Faculdade das Ciências, que sucedeu às referidas duas em 1911) que ocuparam o cargo de Presidente do IC. Dos 17 presidentes do IC (ao longo do período de publicação da revista), cerca de metade (oito) são provenientes destas faculdades e quatro da Faculdade de Medicina.
Em complementaridade dos índices já existentes da revista “O Instituto”, que englobam a totalidade dos artigos publicados, decidimos elaborar um novo conjunto que incide apenas nas ciências Físico-Químicas, com o intuito de disponibilizar aos investigadores destas áreas uma fonte de informação que é reveladora da evolução destas ciências no panorama nacional ao longo da segunda metade do século XIX e a grande parte do século XX (até 1981).

Os índices foram organizados por temas (ideográfico), cronologicamente e por respectivos autores (onomástico). No prefácio do trabalho incluímos uma análise estatística que avalia, genericamente, o relevo assumido pela Química e pela Física em comparação com as restantes ciências tratadas na II classe do IC e com a totalidade de artigos, ao longo do período de publicação da revista (1852-1981).


Este trabalho associa-se assim a esforços anteriores no sentido de tornar a consulta da revista "O Instituto" mais acessível a todos os interessados.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

“O Instituto de Coimbra e a evolução das Ciências Físico-Químicas em Portugal de 1852 a 1952” - Doutoramento em Ensino e História da Física

Adrião Pereira Forjaz de Sampaio (1810-1874), primeiro presidente do Instituto de Coimbra
A ciência em Portugal, apesar de ter permanecido longe da ribalta mundial, conheceu um significativo impulso com a formação em 1852 de uma academia científica e literária – o Instituto de Coimbra (IC). A publicação da revista O Instituto e a criação de uma biblioteca dentro do IC deram origem a um valioso espólio bibliográfico e documental que constitui uma importante fonte de informação sobre o desenvolvimento da ciência em Portugal na segunda metade do século XIX e em quase todo o século XX. A sua acção ligada à da Universidade de Coimbra foi considerável, ao promover a organização de vários congressos e conferências com a participação de eminentes cientistas estrangeiros, ao publicar a referida revista científica e literária, ao procurar a renovação dos conteúdos curriculares, etc.
A acção do IC está em larga medida por estudar, tal como está de resto a acção, seja ela positiva ou negativa, do academismo científico em Portugal. Mas o rol de personalidades que pertenceu ao IC é tão rico e extenso, tocando todos os quadrantes da sociedade portuguesa, que se pode, com base nos artigos que esses e outros autores publicaram na revista do Instituto, bem como nas teses académicas publicadas pela Imprensa da Universidade, assinalar e discutir alguns marcos da história da ciência e do ensino em Portugal entre 1852 e 1950.
Foi com base nestes pressupostos que iniciei, em Maio de 2007, o meu trabalho de doutoramento, sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Fiolhais e co-orientação do Prof. Dr. Décio Martins do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Se o limite inferior natural para o presente trabalho foi o ano da fundação do Instituto de Coimbra, demarquei como limite temporal superior o ano de 1952, que marca o centenário do IC, por se considerar que a relevância dessa instituição decresce claramente a partir deste ano, apesar de ainda subsistir até ao início da década de 1980, já depois da Revolução de Abril de 1974.
Este trabalho pretende fazer uso do acervo do IC, que se encontra na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), a fim de estudar o impacto que aquela instituição teve na evolução da ciência e do seu ensino no nosso país, em particular da Física e da Química, na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, tanto a nível universitário como pré-universitário. Para além disso, é objectivo deste estudo avaliar o nível de actualização científica da academia coimbrã através da organização dos cursos das Faculdades de Filosofia, Matemática e posteriormente da Faculdade de Ciências (que, em 1911, resultou da fusão das duas faculdades), da evolução dos programas de ensino e, com particular ênfase, das teses académicas publicadas pela Imprensa da Universidade.
Beneficiando de acesso ao espólio desta sociedade académica, a minha atenção incidiu em especial nos conteúdos da publicação O Instituto. Este jornal é constituído por 141 volumes que se estendem desde 1852 até 1981. Apenas existiam dois índices da revista O Instituto publicados: um que englobava os volumes 1.º a 91.º, de 1937, e outro dos volumes 91.º a 100.º, de 1949. Tendo verificado esta lacuna, elaborei um índice ideográfico e onomástico relativo aos volumes 101.º a 141.º, que já se encontra disponível na página da BGUC. Através de uma análise cuidada de todos os volumes d’O Instituto, foi seleccionada uma lista alargada de todos os artigos relevantes para a Física e para a Química. Esta informação está organizada num outro índice que será brevemente publicado on-line.
Com base em artigos publicados na revista do IC, elaborou-se o artigo intitulado “António da Costa Simões e a génese da Química Forense em Portugal“, cuja publicação já foi aceite pela Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Em fase de revisão encontra-se um segundo artigo com o título “A telegrafia eléctrica nas páginas de O Instituto, revista da academia de Coimbra.”
O trabalho desenvolvido originou comunicações nos congressos da Sociedade Portuguesa da Química (SPQ) e da Sociedade Portuguesa da Física (SPF): no XXI Encontro Nacional da SPQ, realizado de 11 a 13 de Junho de 2008 na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, por poster, com o título “A Química Analítica, nas páginas d’O Instituto, na segunda metade do século XIX”, e na 16.ª Conferência Nacional de Física/17.º Encontro Ibérico para o Ensino da Física, realizado de 3 a 6 de Setembro na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, também por poster, com o título “O Instituto e a telegrafia eléctrica em Portugal”.
Queria agradecer à Fundação para a Ciência e Tecnologia, instituição da qual sou bolseiro.