quarta-feira, 14 de julho de 2010

Alma Mater e República Digital

Foi hoje apresentada publicamente a ALMA MATER – Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra. Este novo recurso congrega as bibliotecas digitais da Universidade de Coimbra (Biblioteca Geral Digital, Biblioteca Digital da Faculdade de Direito, Biblioteca Digital de Botânica e a mais recente Biblioteca Digital da Faculdade de Letras) e reúne um vasto acervo de obras que integram o património bibliográfico e documental das bibliotecas de diversas faculdades.

Na ALMA MATER é possível pesquisar os documentos digitais existentes nas bibliotecas da Universidade de Coimbra e consultá-los pormenorizadamente. Dos cerca de 4000 documentos disponibilizados ao público destacam-se alguns periódicos como o Annuario da Universidade de Coimbra, O Instituto: jornal scientifico e litterario, o Boletim dos Hospitais da Universidade de Coimbra e as Observações meteorológicas, magnéticas e sísmicas, a correspondência de Aurélio Quintanilha e Luís Carrisso e o núcleo fotográfico do espólio de Belisário Pimenta.

Na mesma sessão foi apresentada a República Digital, que “é uma plataforma de informação digital de acesso livre, para a investigação e para o público em geral, que aglutina um conjunto diversificado de documentação disponível na Biblioteca Geral, na Rede de Bibliotecas da Universidade de Coimbra e na Biblioteca Municipal de Coimbra, directa ou indirectamente relacionado com a afirmação das ideias e das instituições republicanas em Portugal, e com a oposição republicana ao Estado Novo”. Assumem destaque, nesta plataforma, três núcleos principais de documentação: o Fundo Belisário Pimenta; o Fundo Armando Cortesão; e um núcleo de documentos digitais composto por “jornais de Coimbra, manifestos, revistas científicas e trabalhos universitários, representativos das transformações sociais, políticas, estéticas e científicas, ocorridas no arco de tempo compreendido entre as décadas de 1890 e de 1920.”

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Alexandre Herculano e o Instituto de Coimbra


No bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano (1810-1877), recordamos este que foi um dos sócios honorários do Instituto de Coimbra, desde a sua fundação (1852), e umas das principais figuras da cultura portuguesa oitocentista.

Alguns textos de Herculano encontram-se publicados na revista O Instituto, nos seus números iniciais, nomeadamente, na forma epistolar. As primeiras cartas que o Instituto publicou dizem respeito a uma solicitação de Herculano à Faculdade de Direito de Coimbra, em 1853, para que esta emitisse um parecer sobre o seu IV volume da História de Portugal, no que aos assuntos jurídicos dizia respeito, reconhecendo o autor a sua insuficiência de formação neste campo. A resposta da comissão nomeada para o efeito foi extremamente favorável, interpretada por Herculano como um incentivo à prossecução dos seus trabalhos (vd. vol. 2, p. 13, 61, 66).

Dois anos mais tarde, Herculano envia à redacção d’O Instituto uma carta, publicada no vol. 4 (p. 195), para se defender das acusações de anticlericalismo que lhe são feitas num outro artigo da mesma revista, assinado por Miguel Ribeiro de Vasconcelos, intitulado “Memória histórica sobre a revolução que em 1246 tirou a coroa a D. Sancho II”.

Em contrapartida, é significativo o número de artigos d’O Instituto dedicados a Alexandre Herculano, mormente no volume subsequente à sua morte (vol. 25), e nos volumes 84, 85 e 86, onde finalmente se publicaram artigos que se destinavam a uma projectada obra de comemoração do 1º centenário do seu nascimento. Entre estes destacamos o texto “Herculano en la religión ibérica”, da autoria de Miguel de Unamuno (vol. 85, p. 503).

Com efeito, em 23 de Maio de 1878, o Instituto realizou uma sessão pública de homenagem ao historiador, onde Vicente Ferrer Neto Paiva, sócio do IC e amigo de Herculano, leu o seu elogio histórico. Em 1881, o IC lançou uma subscrição entre os seus membros em ordem a contribuir para um monumento a Herculano, e foi adquirido, por iniciativa do sócio José Epifânio Marques, um retrato de Alexandre Herculano para figurar na Sala de Conferências do Instituto. O IC esteve ainda representado, por intermédio de D. António da Costa de Sousa de Macedo e do Conde de Valenças (Luís Jardim), na cerimónia de trasladação dos restos mortais do escritor para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1888.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Comportamento higrotérmico registado no ano de 2009

Os valores médios de temperatura e de humidade relativa registados no ano de 2009 estão dentro dos valores estabelecidos pela International Federation of Library Associations (IFLA).

Como se pode verificar na tabela, os 19,4ºC de valor médio anual de temperatura registados no último ano encontram-se dentro dos parâmetros recomendáveis (oscilação entre os 16ºC e os 20ºC). O valor médio mensal da temperatura não foi inferior a 16ºC, e só mesmo nos meses de Junho a Outubro superou os valores recomendados, nunca ultrapassando os 21,8ºC.

O valor médio anual da humidade relativa do ar obtido no ano de 2009 enquadra-se perfeitamente dentro dos valores recomendados pela IFLA, que se cifram nos 55% (com a tolerância de ± 5%). Contudo, os valores médios mensais superam este valor, curiosamente, nos meses marcados pela subida da temperatura média (de Junho a Novembro).

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A alfabetização e a polémica do método de Castilho nas páginas d’O Instituto

O alargamento da instrução ao maior número de pessoas e a alfabetização da população foram questões centrais do século XIX português, enquanto vectores de actuação do pensamento liberal. O debate sobre a educação atravessou uma boa parte daquela época, convocando intelectuais de diversas origens que pugnavam por uma reforma dos estudos, perante a extrema insuficiência cultural do país. A instrução popular era, pois, defendida e incentivada, reconhecendo-se que o povo necessitava de receber formação para que pudesse contribuir para o progresso económico. A génese do método de Castilho e da polémica que o envolveu situa-se nesta vontade de dar às classes menos favorecidas os meios de se instruir e com a maior celeridade possível.

António Feliciano de Castilho (1800-1875) encontrava-se em finais da década de 1840 nos Açores a colaborar com a Sociedade Promotora da Agricultura, quando se verificou que o elevado analfabetismo existente na ilha constituía um entrave à difusão dos conhecimentos necessários ao desenvolvimento da produção agrícola. A partir daí, Castilho teve a ideia de conceber um método rápido e fácil para instruir essa população. Este é, portanto, um método de ensino primário, que Castilho foi buscar ao sistema de Lemare, um erudito francês, publicado anos antes, e adaptou às particularidades do caso português. Algumas das principais características deste método de leitura repentina eram a acentuação do valor fónico das palavras, o ensino baseado no ritmo, com cantos e palmas, em ligação com uma nova ortografia que inicialmente Castilho propôs, baseada no som das palavras. Foi de facto ensaiado em S. Miguel e, depois, quando em 1850 regressou a Lisboa, Castilho tomou várias medidas para difundir a sua criação, quer através da imprensa quer dos órgãos do governo, junto com a publicação da 1ª edição da obra, nesse mesmo ano, sob o título Leitura repentina: método para em poucas lições se ensinar a ler com recreação de mestres e discípulos.

O Conselho Superior de Instrução Pública (CSIP) homologou o método como um dos elegíveis pelos professores, mas não lhe deu a exclusividade pretendida pelo autor. Mais ainda, o referido órgão ordenou que fosse experimentado em diversas escolas e aguardou os respectivos resultados para se pronunciar sobre ele. Aliás, esta é uma orientação que podemos comprovar nas páginas d’O Instituto, que publicava na altura os relatórios anuais do CSIP. Os documentos oficiais emitidos pelos comissários de cada distrito dão conta da implementação do método em algumas escolas e dos seus efeitos, enquanto os relatórios do CSIP vão adiando o parecer final sobre o método português, deixando porém um recado a Castilho: “quando as descobertas são boas, não é preciso recomendá-las” (vol. 5, p. 101).

No mesmo ano de 1850, A. F. de Castilho solicitou à Academia Real das Ciências de Lisboa um parecer sobre o seu trabalho, o qual se revelou pouco favorável, apontando, entre outros problemas, o facto de o método ser adaptado de outro que em França fora rejeitado, a impressão de que as figuras e os objectos distraem a atenção das crianças e a de que a aprendizagem da leitura não era mais “repentina” do que nos outros métodos. Um outro parecer bem pouco animador para Castilho foi o que emitiu a Associação dos Professores do Reino e Ilhas, publicado n’O Instituto nos vols. 4 (1856) e 5 (1857), respondendo à solicitação do próprio autor. Este é ainda mais incisivo, declarando que o método português (ou método de leitura repentina ou método Castilho) “não convém ao público por ser contrário à educação e às disposições da boa lógica”, aprofundando depois os diversos motivos para esta sentença. A propósito deste, Castilho não deixará de se indignar com o redactor d’O Instituto, em carta publicada no vol. 5, por este não dar o mesmo tratamento à sua resposta ao parecer da Associação de Professores, ficando limitado a remeter o leitor para o Diário do Governo.

A polémica assumiu por vezes contornos pessoais, envolvendo insultos de parte a parte, que a própria revista do Instituto pode comprovar. No caso, O Instituto testemunhou uma disputa entre Castilho e Marceliano Ribeiro de Mendonça, este na altura comissário dos estudos do Funchal, ambos sócios do IC. M. R. de Mendonça chegou a conceber um método próprio de ensino, que designou por ensino paralelo da escrita e leitura, anunciado no vol. 4 (p. 243-247), contrapondo-o ao método de Castilho que, na sua óptica, pecava por destruir os pressupostos etimológicos da língua e por separar a aprendizagem da leitura da aprendizagem da escrita.

Outros textos surgiram na revista, desde o seu 1º volume, de crítica às propostas de Castilho. Um deles (vol. 1, p. 250), assinado por J. A. Sousa, coloca reparos à ortografia fónica, defendendo que a fundamentação da escrita no princípio único da pronúncia é demasiado redutor, devendo antes seguir-se igualmente a etimologia e o uso da língua. Repetidos artigos assinados unicamente pela inicial M. representam também um forte ataque a Castilho. Publicados nos volumes 2 (p. 112-113), 3 (p. 185-186, 312-313) e 4 (p. 53-55 e 256-258), neles o autor empenha-se em mostrar que o método de Castilho não é novidade e que as suas vantagens só poderão ser sancionadas ao fim de alguns anos de experiência, criticando a leviandade de se tentar erguer um método como único verdadeiro. Enquadra-se aqui um outro diferendo paralelo deste autor com Adrião Forjaz de Sampaio. Na verdade, Adrião Forjaz, aquele que foi o primeiro presidente do IC, lançou na revista três textos em defesa de A. F. de Castilho. Revelou entusiasmo pelas experiências realizadas, em especial em asilos de infância, observando progressos na aprendizagem das crianças. A sua preocupação dirige-se ainda para a necessidade de dar formação a professores sobre este método e, neste contexto, incentiva a revista do IC a continuar a noticiar a aplicação deste novo método de ensino. No vol. 3 (1855), Forjaz volta a defender o método português e os seus resultados positivos, alertando, por outro lado, para os ânimos que se haviam levantado em volta desta questão e que não considera próprios de um jornal de ciências e literatura.

O vol. 6 envolve na contenda a própria redacção da revista que, chamada a formular o seu juízo sobre o discurso introdutório de Castilho à 4ª ed. do seu método, profere uma opinião que não agrada ao autor, confirmada depois numa “Declaração” expressa (p. 73). Os redactores d’O Instituto concedem a possibilidade de se obter bons resultados com o método de Castilho (se os mestres forem bons), mas apontam-lhe algumas falhas ou insuficiências: uma delas é que, sendo um método que exige frequência regular das aulas, ele pode prejudicar os alunos de classes menos abastadas, que têm muitas vezes que trabalhar para ajudar a sustentar a família; além disso, tem a desvantagem de requerer que todos os alunos comecem com o mesmo nível de instrução. Sugerem mesmo que Castilho estava a exigir demasiado e a autoglorificar-se precocemente. Propõem, enfim, que se unifiquem o método antigo, o de Marceliano Ribeiro de Mendonça e o de António Feliciano de Castilho. No referido “Discurso preliminar da quarta edição do Methodo Portuguez” (p. 109-115), Castilho responde aos principais defeitos apontados ao método, ao mesmo tempo que concede algumas alterações, tais como retirar as palmas ou o canto e a substituição da sua ortografia fónica pela ortografia etimológica. De novo proclama a primazia do método português, apontando razões para não ter sido adoptado em todas as escolas: o facto de ser novidade e de afrontar interesses consagrados, por não ter sido amparado e porque os mestres mostravam resistência em aprender um método novo.

Registe-se ainda que o próprio Instituto de Coimbra, na sua Classe de Literatura, designou para tema de discussão ou de trabalhos no ano de 1853 o exame crítico do método de leitura repentina (cf. vol. 1, p. 205).

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Instituto de Coimbra e a Astrofísica em Portugal

O Instituto – revista científica e literária contém muitos artigos que descrevem, em pormenor, a investigação realizada na secção de astrofísica do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (UC), incluindo os principais resultados obtidos. Através de uma análise destes artigos, complementada com uma pesquisa noutras fontes, é possível traçar a história dos estudos pioneiros realizados do nosso país no âmbito da física solar, bem como aferir a influência do Instituto de Coimbra neste projecto.

Em 1925 foi criada no Observatório Astronómico da UC uma secção dedicada à astrofísica e, em particular, ao estudo dos fenómenos cromosféricos solares. Esta área de investigação tornou-se possível através da instalação de um espectroheliógrafo, instrumento que permite obter imagens monocromáticas da cromosfera solar. O novo aparelho, similar ao existente no Observatório de Meudon (Paris), permitiu trocar observações entre os dois observatórios. A pesquisa integrou uma campanha mundial de monitorização dos fenómenos solares.

Tal desenvolvimento da astrofísica em Portugal teve como mentor Francisco Miranda da Costa Lobo, professor de astronomia da Faculdade de Matemática da UC, director do Observatório de Coimbra e Presidente do Instituto de Coimbra (IC). Neste projecto, Costa Lobo contou com o apoio de Henri Deslandres, director do Observatório de Meudon, e do assistente deste Lucien D’Azambuja. O espectroheliógrafo, considerado um instrumento essencial para o estudo do Sol, decalcava o de Meudon, em funcionamento desde 1908 e um dos mais avançados a nível mundial. Através da cooperação com Paris, o equipamento de Coimbra foi sendo melhorado em paralelo com as inovações introduzidas no instrumento de Meudon, estando ainda hoje operacional. O sucesso desta iniciativa deveu-se à rede de contactos internacionais de Costa Lobo, em particular à sua participação em numerosos congressos como representante do IC, da UC e do governo português. Um protagonista importante deste projecto foi Gumersindo Sarmento de Costa Lobo, filho de Francisco Costa Lobo, que, após ter realizado um estágio em Meudon em 1923, foi o cientista mais importante na instalação do espectroheliógrafo, dinamizando a investigação subsequente. Os resultados obtidos em Coimbra entre 1929 e 1944 foram publicados nos Anais do Observatório Astronómico da UC – Fenómenos solares. Os espectroheliogramas foram também partilhados com Meudon, permitindo colmatar lacunas nas observações deste, e encaminhados para Zurique a fim de integrarem o Bulletin for character figures of solar phenomena, publicação da União Astronómica Internacional que, a partir de 1928, recolhia observações solares de vários observatórios mundiais. A cooperação então iniciada com Meudon permanece ainda hoje, passados mais de 80 anos.

A obtenção dos fundos necessários para a aquisição do espectroheliógrafo pode ter que ver com o facto de várias personalidades da elite política da época fazerem parte do IC, algumas das quais, como Bernardino Machado (que ocupou o cargo de primeiro ministro e de Presidente da República em duas ocasiões) e Afonso Costa (ministro e primeiro-ministro de diversos governos), terem desempenhado papéis relevantes nesta academia (Bernardino Machado foi presidente do IC e Afonso Costa foi secretário de IC e coordenou a comissão de redacção da revista O Instituto). O próprio Francisco Costa Lobo teve um passado interventivo na política, embora com menor visibilidade desde a revolução que implantou a república em Portugal em 1910.

O exame das observações efectuadas conduziu à tentativa de explicação do processo de formação das manchas e protuberâncias solares. Na introdução do 1.º volume dos Anais, Francisco Costa Lobo apontou a interligação existente entre as manchas solares e as regiões faculares, zonas brilhantes da superfície solar e com maior extensão que as manchas. Lobo concluiu que os dois fenómenos estavam associados uma vez que as manchas solares surgiam sempre no interior de zonas faculares, pelo que as fáculas seriam mais importantes pois perduravam após o desaparecimento das manchas.

Em 1949, já depois da morte de Francisco Costa Lobo em 1945, o IC organizou uma conferência, impulsionada por Gumersindo Lobo, que trouxe uma vez mais a Coimbra Lucien D’Azambuja, desta vez acompanhado pela sua esposa e assistente Marguerite D’Azambuja. As palestras de ambos, no salão nobre do edifício-sede do IC, incidiram nos fenómenos solares e no progresso das pesquisas efectuadas à atmosfera solar. Marguerite discorreu sobre as possíveis causas das manchas solares e fáculas, indicando as explicações existentes na altura, e Lucien apresentou o seu conceito de centro de actividade, que incorporava vários eventos solares.

Na intervenção dos Costa Lobo, pai e filho, teve influência decisiva a existência do IC, onde os dois tiveram papéis muito activos. Para além de facilitar o estabelecimento de contactos nacionais e internacionais, o IC permitiu, através da sua revista, divulgar a investigação realizada, nomeadamente junto das instituições estrangeiras que recebiam por permuta esta publicação. Terão sido, pai e filho, os primeiros astrofísicos portugueses.

A nossa investigação sobre este assunto originou uma comunicação no Scientiarum Historia II - Encontro Luso-Brasileiro de História das Ciências, realizado de 28 e 30 de Outubro de 2009 no Rio de Janeiro, fazendo parte do respectivo livro de anais. Um artigo mais aprofundado sobre este tema foi submetido a uma revista internacional de história da astronomia.

A. José Leonardo

O Instituto de Coimbra e as reformas do Ensino Secundário em Portugal

Uma parte da história da instrução pública em Portugal vem contada nas páginas da revista O Instituto, em particular nos primeiros dez volumes desta publicação. Uma portaria de Setembro de 1853 determinou a impressão deste jornal na Tipografia da Universidade, com as despesas por conta do Estado, atendendo à relevância que era reconhecida à difusão dos conhecimentos científicos e artísticos, desde que metade do espaço fosse reservado ao Conselho Superior de Instrução Pública (CSIP), um órgão de aconselhamento do governo sobre questões de educação sedeado na Universidade, às Faculdades e aos Hospitais da Universidade. Assim, a totalidade dos relatórios emitidos pelo CSIP foram publicados no Instituto, desde 1844, ano em que esta entidade foi criada numa reforma do governo de Costa Cabral, até 1859, ano da sua extinção por decisão do governo de Fontes Pereira de Melo, sendo substituído pelo Conselho Geral de Instrução Pública, que passaria a reunir em Lisboa sob a presidência do ministro do reino. Além dos referidos relatórios, foram numerosos os artigos sobre o ensino que foram surgindo ao logo da centena e meia de volumes da revista, em particular até 1926 quando findou a primeira república, contendo propostas, regulações e reacções da autoria de diversos académicos nacionais e também de alguns estrangeiros. No seu conjunto, oferecem-nos um corpo, ainda que não muito estruturado, que permite analisar as várias reformas do ensino em Portugal na perspectiva, que não é uniforme, dos sócios do IC.

A nossa investigação incidiu sobre o Ensino Secundário, tendo sido analisados muitos artigos de vários protagonistas nas reformas implementadas, como foram os casos de Jerónimo José de Melo, José Maria de Abreu, Bernardino Machado, Adolfo Coelho, Gonçalves Guimarães e Francisco Costa Lobo, entre outros. Foi dada ênfase ao caso das Ciências Físico-químicas e à sua implementação nos planos curriculares, programas e práticas pedagógicas.

Um dado relevante foi o número extenso de artigos que relataram o estado deste nível de ensino em muitos países europeus, o que se enquadrava na linha editorial do O Instituto. Foi possível também revelar o intercâmbio gerado com o país vizinho, cujo evento mais importante foi o Congresso Pedagógico Hispano-português-americano, realizado em Madrid em 1892. Portugal fez-se representar por uma delegação alargada, liderada por Bernardino Machado, que reuniu os maiores pedagogos portugueses da altura que ali apresentaram várias dezenas de memórias. Bernardino Machado descreveu também no artigo que publicou n’O Instituto o conteúdo de uma exposição pedagógica sobre o sistema educativo português, que decorreu paralelamente ao congresso e que incluiu 200 fotografias de estabelecimentos escolares e outras pastas com documentação diversa.

O interesse espanhol pelo sistema educativo português tornou-se mais evidente após a implantação da República em 1910. Em 1914, uma portuguesa que tinha participado no congresso atrás referido e então com funções docentes num estabelecimento de ensino espanhol onde se implementavam novas técnicas pedagógicas de ensino, foi comissionada pelo governo espanhol para efectuar um estudo sobre a instrução pública em Portugal. O seu nome era Alice Pestana, uma professora da Instituición Libré de Enseñanza (ILE) de Madrid, instituição em relação à qual Bernardino Machado dedicou um artigo que intitulou “Educação Nova em Espanha”. Pestana publicou os seus resultados em 1915, num livro escrito em castelhano com o título “La Education en Portugal” onde fez uma análise extensa de todos os níveis de instrução. O interesse despertado levou que, cerca de três anos depois, um outro professor espanhol com uma bolsa atribuída pela Junta para Ampliación de Estúdios e Investigaciones Científicas (JAE), pertencente à estrutura da ILE, se deslocasse ao nosso país com o intuito de estudar o ensino secundário.

Entre 10 de Maio e 29 de Julho de 1918, Rubén Landa visitou os mais importantes liceus nacionais, assistiu a aulas, conversou com alunos, professores, reitores e governantes, realizou uma conferência sobre o tema na Universidade de Coimbra e, após regressar a Espanha, elaborou uma memória onde descreveu o ensino secundário em Portugal, desde o primeiro decreto de Passos Manuel em 1836, até às reformas de 1921, relatando com maior enfoque o seu estado em 1918 sob a perspectiva imparcial de um investigador estrangeiro. Este artigo, na sua versão mais extensa, foi publicado em várias partes n’O Instituto, a partir do volume 74.º, e também na forma de separata. Nele podemos encontrar uma visão bastante meritória do funcionamento dos liceus lisboetas, nomeadamente os Liceus Pedro Nunes, Passos Manuel e Camões, mas também um parecer bastante favorável em relação ao sistema então em vigor, cuja grande parte tinha sido implementada na reforma de 1905 (ver http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/ruben-landa-e-o-ensino-secundario-em.html).

A partir de 1928 reduz-se significativamente o número de artigos dedicados à instrução pública n’ O Instituto. Apesar de não serem apresentadas quaisquer indicações sobre censura prévia, a grande maioria das pessoas que ocupavam lugares no corpos directivos do IC estavam conotadas com o novo regime, pelo que haveria algum cuidado em publicar artigos que pudessem conter críticas às novas reformas no âmbito da educação. Assim se pode explicar que as profundas reformas realizadas a partir de 1926 não tenham encontrado qualquer menção nas páginas d’O Instituto. Por este motivo, a nossa análise termina com o início da década de 1920, não sendo referenciadas as reformas realizadas a partir de 1926, após a revolução que abriu portas ao Estado Novo.

A pesquisa efectuada teve como resultado dois artigos que relatam a história das reformas no ensino secundário nas páginas d’O Instituto. O primeiro incide no período monárquico parlamentar de 1836 a 1910 e será publicado na Revista Portuguesa de Pedagogia (Leonardo, A. J. F.; Martins, D. R.; Fiolhais, C. (2009). O Instituto de Coimbra e o Ensino Secundário em Portugal de 1836 a 1910. O caso das Ciências Físico-Químicas. Revista Portuguesa de Pedagogia, 43-2, 2009, 239-260). O segundo aborda o período da 1.ª República, de 1910 a 1926, estando prevista a sua publicação no próximo ano, quando se celebra o centenário da implantação da República em Portugal.

A. José Leonardo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Edição digital da revista "O Instituto" é apresentada na próxima segunda-feira

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra apresenta, na próxima segunda-feira, dia 19 de Outubro, a partir das 15 horas, na Biblioteca Joanina, a edição digital de O Instituto: Revista Científica e Literária. Esta revista, publicada pelo Instituto de Coimbra, entre 1852 e 1981, num total de 141 volumes, encontra-se agora integralmente digitalizada em mais de 76 mil páginas disponíveis, a partir de Novembro, em http://bdigital.bg.uc.pt.

Nesta sessão, presidida pelo director da Biblioteca Geral, Prof. Doutor Carlos Fiolhais, e que contará com a presença do vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Prof. Doutor Francisco Sepúlveda Teixeira, será ainda apresentada uma ferramenta inovadora de pesquisa em texto integral, que faculta o acesso à informação por autor, título e palavra significativa. Para além disso, esta nova ferramenta permite o download dos artigos.

A edição digital de O Instituto: Revista Científica e Literária decorre do Projecto Instituto de Coimbra, desenvolvido pela Biblioteca Geral, desde Julho de 2008, e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Entre os objectivos deste projecto, salientam-se ainda a catalogação da biblioteca e do acervo arquivístico, bem como a investigação sobre a história desta antiga academia científica e literária.

Saliente-se que o Instituto de Coimbra, fundado em 1852, foi uma das mais prestigiadas academias nacionais, tendo desenvolvido, nomeadamente, as Ciências Físico-Matemáticas, Sociais e Humanas e a Literatura. Para comprovar o seu prestígio, recordamos o financiamento régio obtido por portaria de 1853, como contrapartida da publicação nas páginas da revista das decisões do Conselho Superior de Instrução Pública.

Entre as actividades do Instituto de Coimbra, salientamos as escavações arqueológicas das Ruínas de Conímbriga, que permitiram reunir valiosas colecções de arte e de arqueologia que integram hoje o acervo do Museu Nacional Machado de Castro. E entre as personalidades que pertenceram a esta academia destacamos Alexandre Herculano, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Ricardo Jorge, Joaquim de Carvalho, Egas Moniz, Eugénio de Castro, Sousa Viterbo, Miguel de Unamuno, Alfred Baudrillart, D. Carlos I, Raymond Poincaré, Anselmo Ferraz de Carvalho e Luís de Albuquerque.

A biblioteca do Instituto de Coimbra é, essencialmente, composta por publicações periódicas e monográficas, sendo um número significativo de revistas resultante da permuta que esta academia estabeleceu com outras academias congéneres nacionais e estrangeiras. Entre estes títulos, encontramos o Boletin de la Real Academia de la Historia, Brotéria, Seara Nova, Bulletin of the New York Public Library, Smithsonian Year e Revue des Deux Mondes.

O acervo arquivístico integra um conjunto de documentos que retratam a vida e a acção da instituição e das personalidades que a dirigiram ao longo de mais de um século. Entre esta documentação, destacamos os manuscritos das Memórias de Castilho.

A equipa responsável pelo Projecto Instituto de Coimbra, dirigida pelo Prof. Doutor Carlos Fiolhais, é coordenada pelo Doutor Jorge Pais de Sousa e conta com a colaboração da Dr.ª Licínia Ferreira, bolseira de Investigação, e da Dr.ª Cláudia Filipe e do Dr. Joaquim Veríssimo, bolseiros de Gestão de Ciência e Tecnologia.